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Pe. Álvaro Corcuera: "Bem aventurados os misericordiosos!"
INTERNACIONAL | REGNUM CHRISTI | ESPIRITUALIDADE
Publicamos a continuação a carta do Pe. Álvaro Corcuera, LC, diretor geral dos Legionários de Cristo e do Movimento Regnum Christi, com motivo da Quaresma 2010.

Hijo prodigo

Brasil, 19 de fevereiro de 2010_ Publicamos a continuação a carta do Pe. Álvaro Corcuera, LC, diretor geral dos Legionários de Cristo e do Movimento Regnum Christi, com motivo da Quaresma 2010.

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*****

 

Venha a nós o vosso Reino!

 

Quarta-Feira de Cinzas, 17 de fevereiro de 2010.

 

Aos membros e amigos do Regnum Christi

por ocasião do início da Quaresma

 

Muito estimados em Jesus Cristo:

Escrevo-lhes com muita alegria, aproveitando este momento para agradecer-lhes de coração pelas suas orações, sua proximidade, seu testemunho de vida cristã e sua entrega a Deus e ao próximo, que são um sinal da presença do Espírito Santo em suas almas. É uma bênção estar com cada um de vocês e compartilhar, como irmãos de uma mesma família, as experiências que vão nos unindo ao amor de Jesus Cristo, que guia nossas vidas.

O início da Quaresma me oferece outra oportunidade para escrever-lhes sobre as diversas virtudes que encontramos no Evangelho e que vão configurando nossas vidas. Este período litúrgico é um momento de oração, penitência e obras de misericórdia, segundo a tradição da Igreja. Acompanhamos a Cristo, que sobe a Jerusalém, que nos ama tanto e confia tanto em nós, que nos convida a segui-lo intimamente pelo caminho da cruz, olhando sempre para a Ressurreição. Nossa vida é uma contínua via sacra, na qual vamos percorrendo com Ele cada estação da cruz, acompanhando-o passo a passo, movidos pela força do amor.

Neste contexto, eu gostaria de aproveitar para refletir com vocês sobre um aspecto central da
El ECYD prepara a los jóvenes para ser apóstoles que conozcan, amen y transmitan el amor misericordioso de Cristo a los demás.
espiritualidade cristã: a misericórdia. “Bem-aventurados os misericordiosos, porque eles alcançarão misericórdia” (Mt 5, 7). Penso que esta quinta bem-aventurança é um resumo de todo o Evangelho.

A fonte da misericórdia

Deus é a fonte da misericórdia. O Pai se compadeceu das nossas misérias e nos enviou seu Filho: “Porque Deus amou tanto o mundo, que lhe enviou seu Filho único, para que todo o que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3, 16). E Jesus Cristo foi o próprio rosto da misericórdia durante sua vida terrena: perdoava, curava, dava de comer e, sobretudo, morreu na cruz e ressuscitou por nós. Dessa forma, podemos contemplar como, “em Cristo e por Cristo, Deus também se torna particularmente visível em sua misericórdia” (João Paulo II, Dives in misericórdia, 2). São Paulo nos diz que “o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado” (Rm 5, 5). É este Espírito, derramado em nossos corações, que nos inspira sentimentos de misericórdia.

Nossa vida é um dom da misericórdia de Deus. Por isso, devemos tanta gratidão a quem nos criou por amor e nos estende sua mão com amor. Quantas vezes João Paulo II nos recordou que o amor é mais forte que o temor, e que o limite imposto ao pecado e ao mal é a misericórdia de Deus!

Quando Cristo nos pede que sejamos misericordiosos, dá-nos também o motivo e o modelo da misericórdia: “Sede misericordiosos, como vosso Pai é misericordioso” (Lc 6, 36). Se quisermos viver esta bem-aventurança, temos primeiro de experimentá-la. Ser testemunha da misericórdia significa conhecer em primeira pessoa o rosto de Deus misericordioso, lento à ira e rico em piedade. Como nos ajuda ler as parábolas da misericórdia do Evangelho de São Lucas e descobrir o rosto escondido de Deus! (cf. Lc 15). Um Deus que é Pai amoroso, que procura a ovelha perdida, que espera o filho que vai embora de casa, que sai ao encontro do filho que não se alegra pela sua misericórdia.

Assim é Deus com cada um de nós. Ele nos vê com amor infinito. Cuida de nós com ternura. Acompanha-nos com paciência. E, se nos perdemos, Ele vai ao nosso encontro para carregar-nos em seus ombros e trazer-nos novamente seguros para casa. Ele é o modelo e a razão de toda misericórdia. A misericórdia é o atributo mais característico de Deus. São Paulo havia experimentado em primeira pessoa a misericórdia de Deus que, sem méritos próprios e por pura bondade sua, saiu ao encontro dele no caminho de Damasco. Por isso, depois não se cansou jamais de pregá-la: “Ele me amou
carta quaresma
e se entregou por mim” (Gl 2, 20), proclamava aos gálatas; “Deus é rico em misericórdia” (Ef 2, 4), anunciava aos efésios; aos romanos, ele explicava que, “assim como vós antes fostes desobedientes a Deus, e agora obtivestes misericórdia com a desobediência deles, assim eles são incrédulos agora, em consequência da misericórdia feita a vós. Deus encerrou a todos esses homens na desobediência para usar com todos de misericórdia” (Rm 11, 30-32). Quem experimentou a misericórdia de Deus não pode guardá-la ou calá-la; converte-se em um apóstolo da misericórdia de Deus.

Pois bem, esse olhar de Deus é o que nos deve levar a ver o próximo como Cristo o vê. O cristão aprende a ver os demais a partir da ótica de Jesus Cristo. Como o Papa Bento XVI nos ensina: “O seu amigo é meu amigo. Para além do aspecto exterior do outro, dou-me conta da sua expectativa interior de um gesto de amor, de atenção (…). Eu vejo com os olhos de Cristo e posso dar ao outro muito mais do que as coisas externamente necessárias: posso dar-lhe o olhar de amor de que ele precisa. (…) Só a minha disponibilidade para ir ao encontro do próximo e demonstrar-lhe amor é que me torna sensível também diante de Deus. Só o serviço ao próximo é que abre os meus olhos para aquilo que Deus faz por mim e para o modo como Ele me ama. (Deus caritas est, 18).

O bom samaritano

No Evangelho, Jesus narra esta parábola para mostrar-nos quem é o nosso próximo e como deve ser uma atitude de verdadeira misericórdia. Pode ser de grande ajuda voltar a lê-la: “Certo homem descia de Jerusalém para Jericó e caiu na mão de assaltantes. Estes arrancaram-lhe tudo, espancaram-no, e foram-se embora, deixando-o quase morto. Por acaso, um sacerdote estava descendo por aquele caminho. Quando viu o homem, seguiu adiante, pelo outro lado. O mesmo aconteceu com um levita: chegou ao lugar, viu o homem e seguiu adiante, pelo outro lado. Mas um samaritano, que estava viajando, chegou perto dele, viu e sentiu compaixão. Aproximou-se dele e fez curativos, derramando óleo e vinho nas feridas. Depois colocou o homem em seu próprio animal e levou-o a uma pensão, onde cuidou dele. No dia seguinte, pegou duas moedas de prata e entregou-as ao dono da pensão, recomendando: ‘Toma conta dele! Quando eu voltar, vou pagar o que tiveres gasto a mais’. E Jesus perguntou: ‘Na tua opinião, qual dos três foi o próximo do homem que caiu nas mãos dos assaltantes?’ Ele respondeu: ‘Aquele que usou de misericórdia para com ele’. Então Jesus lhe disse: ‘Vai e faze a mesma coisa’.” (Lc 10, 25-37).

Os Padres da Igreja comentaram esta passagem em diversas obras. O homem que foi assaltado é o homem como tal. Todos nós, homens e mulheres, percorremos este mesmo caminho de Jerusalém a Jericó. O samaritano que se aproximou e atendeu o ferido é Cristo: Ele sente compaixão, faz os curativos, coloca-o em seu cavalo, leva-o a uma pensão para que cuidem dele. A pensão é a Igreja. Nela, cuidam dele e
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o curam. A conclusão desta parábola é que todos os cristãos estão chamados a agir como este samaritano, sentindo profunda compaixão dos seus irmãos, assaltados e feridos pelo mal e pelo pecado.

João Paulo II nos dizia que o bom samaritano é “todo o homem que se detém junto ao sofrimento de um outro homem (...). Bom Samaritano é todo o homem sensível ao sofrimento de outrem, o homem que ‘se comove’ diante da desgraça do próximo” (Salvifici doloris, 28). Esta parábola é um convite a não deixarmos de nos comover diante da desgraça do próximo, a não nos acostumarmos a ver nossos irmãos sofrerem, física ou espiritualmente. Como permanecer tranquilos frente a tanto sofrimento?

Às vezes, assusta-nos dar algo e, sobretudo, doar-nos, como fez o bom samaritano na parábola. No entanto, as pessoas verdadeiramente felizes são as que mais se doam. Há dois anos, em umas respostas espontâneas do Papa Bento XVI ao clero de Bolzano, durante suas férias, ele lhes disse que “preocupar-nos com os demais é a melhor maneira de nos preocupar com nós mesmos” (Encontro com o clero de Bolzano, 6 de agosto de 2008). Tudo isso nos convida a praticar a misericórdia. A Madre Teresa de Calcutá compôs uma oração maravilhosa, na qual se revela como a melhor forma de esquecer-se das próprias cruzes é ajudar os demais a carregarem as suas, como bons cirineus.

“Senhor, quando eu tiver fome, manda-me alguém para eu alimentar.

Quando eu tiver sede, manda-me alguém para eu dessedentar.

Quando eu tiver frio, manda-me alguém para eu aquecer.

Quando eu estiver triste, manda-me alguém para eu consolar.

Quando minha cruz parecer pesada, deixa-me compartilhar a cruz do outro.

Quando eu estiver pobre, manda-me alguém mais pobre do que eu.

Quando eu não tiver tempo, manda-me alguém para eu escutar.

Quando eu for humilhado, manda-me alguém para comigo louvar.

Quando eu estiver desanimado, manda-me alguém para eu encorajar.

Quando sentir necessidade da compreensão dos outros,

dá-me alguém que precise da minha.

Quando sentir necessidade de que cuidem de mim,

dá-me alguém a quem eu tenha de atender.

Quando pensar em mim mesma, volta minha atenção para outra pessoa.

Torna-nos dignos, Senhor, de servir nossos irmãos.

Dá-lhes, através de nossas mãos, não só o pão de cada dia,

mas também nosso amor misericordioso, imagem do teu.”

As obras de misericórdia

Vinde, benditos de meu Pai! Recebei como herança o Reino que meu Pai vos preparou desde a criação do
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mundo! Pois eu estava com fome e me destes de comer; eu estava com sede e me destes de beber; eu era estrangeiro e me rece­bestes em casa; eu estava nu e me vestistes; eu estava doente e cuidastes de mim; eu estava na prisão e fostes me visitar”
(Mt 25, 34). Partindo destas palavras de Cristo no Evangelho, foram se desenvolvendo na reflexão e na catequese da Igreja as assim chamadas “obras de misericórdia”, sete corporais e sete espirituais, que todos nós aprendemos desde crianças. O serviço ao próximo não é algo abstrato, e sim muito concreto. As obras corporais são: dar de comer a quem tem fome; dar de beber a quem tem sede; vestir os nus; visitar os doentes; visitar os presos; acolher os peregrinos; enterrar os mortos. As obras espirituais, por sua vez, são: dar bom conselho; corrigir os que erram; ensinar os ignorantes; suportar com paciência as fraquezas do próximo; consolar os aflitos; perdoar aos que nos ofenderam; rezar pelos vivos e pelos mortos.

Como podemos ver, as obras de misericórdia não são teorias, nem sentimentos, nem palavras: são obras. Quem se compadece das misérias do próximo torna-se mais humano, mais cristão, mais feliz. “O homem misericordioso faz bem a si próprio; mas o cruel prejudica sua própria carne” (Pro 11, 17). O próprio Cristo nos ensina, na descrição do juízo final, que “todas as vezes que fizestes isso a um dos menores de meus irmãos, foi a mim que o fizestes” (Mt 25, 40). O que nos dizem hoje estas obras de misericórdia? Que o meu próximo é Cristo, que se apresenta diante de mim e me oferece a oportunidade de devolver-lhe compreensão pela compreensão, misericórdia pela misericórdia, perdão pelo perdão, consolação pela consolação...

Como seria muito extenso tratar sobre todas elas, eu gostaria de deter-me somente em algumas.

Suportar com paciência as fraquezas do próximo

Todos nós sofremos na vida pelos defeitos do próximo. Em nossa vida diária, depende de cada um suportá-los com paciência e santificar-se com isso ou suportá-los com raiva ou simples resignação. Poderíamos dizer que quem os suporta pacientemente, vive a caridade com grande perfeição. “A caridade é paciente...” (1 Cor 13, 4). A paciência autêntica brota do amor. Como um pai vai andando de mãos dadas com o filho e vai preparando-o para as dificuldades e provas da vida, assim Deus vai caminhando de mãos dadas conosco e formando em cada um e
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nós um coração como o seu, de Bom Pastor. Infelizmente, existem também situações em que não se trata somente de “defeitos”, mas de comportamentos que ferem diretamente a dignidade do próximo. Nestes casos, também temos o dever de fazer todo o possível para prevenir os danos, ajudar a que sejam superados e afastar-nos prudentemente para não nos expormos.

Se compreendêssemos o poder santificador da paciência, abraçaríamos com gratidão as pessoas cujos defeitos e jeito de ser nos fazem sofrer. Nosso Senhor nos oferece de bandeja as oportunidades de sofrer com paciência os defeitos do próximo! Deus os colocou ao nosso redor. Como diz uma oração atribuída a São Francisco, “Meu Deus, concede-me serenidade para aceitar o que não posso mudar, valor para mudar o que posso e sabedoria para reconhecer a diferença”. Isso também nos levaria a examinar para ver que aspectos da nossa personalidade podem ser motivo de sofrimento para o próximo, de forma que vivamos mais para servir e amar os demais que para nós mesmos.

Nós, sacerdotes, lemos no breviário, no sábado passado, um texto que falava da preeminência da caridade, dizendo “Sejamos compassivos, caridosos com nossos irmãos, suportemos suas fraquezas, procuremos fazer seus vícios desaparecerem” (Sermão do beato Isaac de Stella, PL 194, 1292). Santa Teresinha do Menino Jesus sentia uma grande antipatia por uma das irmãs da sua comunidade. Ela não havia escolhido que religiosas seriam suas companheiras. A própria santa nos conta, em sua autobiografia, como tentava fazer por essa irmã o que faria pela pessoa mais querida: rezava a Deus por ela, procurava prestar-lhe todos os serviços possíveis e, quando se sentia tentada a responder-lhe bruscamente, dirigia-lhe um amável sorriso. Se a tentação de impaciência era muito violenta, então ela conta que fugia, “como um soldado desertor”. Assim, pouco a pouco ia conquistando vitórias em sua relação com essa religiosa. Exemplos como este nos ensinam a não viver na defensiva. Quem aspira só a não ser impaciente, a não manifestar externamente brusquidão, aspira a pouco. A santa de Lisieux optou pela postura ofensiva e mostrou especial simpatia e afeto; tanto assim, que a outra religiosa chegou a pensar que Santa Teresinha era sua melhor amiga. É uma maneira concreta e prática de vencer o mal com o bem. As fraquezas do próximo tem a virtude de ajudar-nos a superar a escravidão do nosso egoísmo, afastam-nos do nosso próprio eu e da nossa forma de ser e nos levam pelo caminho do esquecimento de nós mesmos. É o caminho da paz interior.

Às vezes nos encontramos diante de dificuldades ou situações que não podemos mudar, que nos mortificam e nos fazem sofrer. Se virmos isso da ótica de Cristo e do Evangelho, saberemos que, mais do que desgraças, são um presente de Deus. Ele nos convida a descobrir sua mão amorosa em tudo o que nos acontece. Ele não deixa escapar nada. Se contou até os fios de cabelo da nossa cabeça, conhece muito mais as pessoas e situações que nos fazem sofrer! Os melhores ingredientes de uma vida santa e autêntica são a paciência, a constância e a compreensão na vida real e cotidiana. Precisamos nos propor firmemente a ser pacientes com todos e em tudo; aceitar internamente os defeitos do próximo, seu caráter, suas faltas, sua forma de ser. Aceitar e amar o próximo assim como ele é, não como eu gostaria que fosse ou como eu esperaria que fosse. Se Deus o colocou ao meu lado, se Deus permite que ele viva ou trabalhe perto de mim, Ele me dará as graças que preciso para aceitá-lo e amá-lo como ele é.
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Também implica em saber conhecer a nós mesmos, aceitar-nos, com nossas qualidades e defeitos, e superar-nos cada dia, na tarefa da conversão diária. As virtudes não são estáticas, mas foram feitas para crescer. Deus nos criou para sermos santos; todos nós recebemos uma vocação à santidade e, nas dificuldades, encontramos as oportunidades para responder ao convite de ser perfeitos como o Pai celestial é perfeito. Nisso nos move a paixão pela santidade, não como um projeto pessoal, mas como uma resposta de amor ao amor infinito e carinhoso de Deus, que nos criou à sua imagem.

Perdoar aos que nos ofenderam

Um dos gestos mais significativos do Papa João Paulo II durante o Grande Jubileu do Ano 2000, foi o dia do perdão, convocado para o primeiro domingo da Quaresma desse ano. Não era a primeira vez que João Paulo II pedia perdão pelos pecados dos filhos da Igreja, mas era a primeira vez que ele dedicava uma celebração solene a isso. Lembro que a cerimônia em São Pedro começou com o cardeal Bernardin Gantin, que pedia a purificação da memória dos cristãos. Seguiu então o cardeal Joseph Ratzinger, que confessou as culpas de homens da Igreja que recorreram às vezes a métodos não evangélicos. O cardeal Roger Etchegaray pediu perdão pela divisão dos cristãos. E assim, sucessivamente, diversos cardeais passavam pedindo perdão por estes pecados. “Enquanto pedimos perdão, perdoamos”, disse o Santo Padre em sua homilia. “Que este dia jubilar traga a todos os crentes o fruto do perdão reciprocamente concedido e acolhido! Dessa forma, com a memória purificada e reconciliados, os cristãos poderão entrar no terceiro milênio como testemunhas mais confiáveis da esperança” (João Paulo II, Dia do Perdão, 12 de março de 2000). Foi uma cerimônia repleta de um profundo significado. Ele pediu perdão, e ofereceu perdão para todos aqueles que atacaram, perseguiram, martirizaram os cristãos em todas as épocas.

Para João Paulo II, o perdão não era uma ideia ou uma teoria, nem uma maneira de fugir superficialmente da verdade ou da justiça. O perdão era uma necessidade, um imperativo do cristão, uma consequência do mandamento novo do amor. Disso nos deu exemplo ao perdoar de coração a quem atentou contra a sua vida no dia 13 de maio de 1981. Quando pôde sair do hospital, foi à prisão, visitou-o e o abraçou. Vimos um gesto semelhante há algumas semanas, quando Bento XVI recebeu a mulher que tentou agredi-lo no início da última Missa de Natal. Esses gestos de perdão, no entanto, não se improvisam. Preparam-se, aliás, com pequenos atos, com o perdão às ofensas de cada dia. Como seremos capazes de perdoar as grandes injúrias se não aprendermos a desculpar de coração as pequenas?

O perdão é uma das expressões mais autênticas do amor. Se Deus é Amor, podemos dizer também que Deus é Perdão. Nada faz Deus tão feliz como perdoar. Ele perdoa sempre. Perdoa todos. Perdoa tudo. Perdoa e esquece. A única condição que nos apresenta é acolher o seu perdão através do arrependimento. Por isso, o Compêndio do Catecismo nos ensina que acolher a misericórdia “exige o reconhecimento das nossas culpas e o arrependimento dos nossos pecados. Pela sua Palavra e pelo seu Espírito, o próprio Deus nos revela os nossos pecados, dá-nos a verdade da consciência e a esperança do perdão” (n. 391). Todos os
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homens têm de pedir perdão pelos seus pecados e perdoar, a exemplo de Cristo. Sem o perdão, a nossa fé cristã perde a sua razão de ser.

Abrir-se à misericórdia significa reconhecer as faltas, aceitá-las com espírito de humildade, e apresentar-nos diante de Deus e do próximo com um coração arrependido, aberto ao maior dom que um homem pode receber: o perdão de Deus, rico em misericórdia. Nosso Senhor Jesus Cristo, ao nos ensinar o Pai Nosso, quis unir para sempre o perdão de Deus ao perdão ao próximo: “Perdoai-nos as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido”. Quem experimentou o perdão gratuito de Deus, como não perdoará o próximo que o ofendeu? No Evangelho, Jesus Cristo nos narra a parábola do servo a quem o rei, compadecido, perdoou uma dívida de dez mil talentos e ele, por sua vez, não aceitou perdoar o companheiro que lhe devia cem denários. Agarrando-o, ele o sufocava, enquanto dizia “Paga o que me deves”. Não escutou as suas súplicas, mas o jogou na prisão até que pagasse o que devia. Todos nós experimentamos repulsa por esse personagem. Ele não tinha sido perdoado? Não deveria, por sua vez, perdoar também? Por isso, a parábola termina de maneira tão clara: “Servo mal, eu te perdoei toda aquela dívida porque me suplicaste. Não devias tu também compadecer-te do teu companheiro, do mesmo modo que eu me compadeci de ti?” (cf. Mt 18, 23-25).  

Penso que nós somos beneficiados ao considerar a misericórdia de Deus para com cada um, em primeira pessoa. Necessitamos sentir-nos devedores de uma dívida impagável, necessitamos experimentar a alegria de termos sido redimidos gratuitamente. A alma que se alegra com a alegria do perdão dificilmente se fechará ao próximo quando receber uma ofensa. O melhor caminho para perdoar é reconhecer-se perdoado. Aquele que não perdoa, não só ofende Deus e o próximo, mas causa um grande dano a si mesmo. O rancor é para a alma o que o câncer é para o corpo. Tem de ser cortado, ser extirpado o quanto antes, se não quisermos que invada tudo.

Um ressentimento aceito internamente vai se alimentando cada dia, cresce e provoca maior aversão e hostilidade. Aquele que se fecha internamente ao próximo se torna autossuficiente e o orgulho vai invadindo a sua alma, produzindo uma profunda tristeza e insatisfação no coração. Sem esta atitude, muito dificilmente procurará Deus com humildade e simplicidade para reconhecer a sua miséria e obter a sua misericórdia. Ao não perdoar, sem querer se vai fechando à experiência libertadora do perdão. Como nos comovem as pessoas que, tendo recebido injúrias, expressam o seu perdão! E como refletem a presença de Deus as pessoas que se aproximam de todos com humildade para pedir perdão!

Diante do rancor, como diante de qualquer doença, vale
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mais prevenir do que remediar. Não podemos deixá-lo nascer. É natural que surja espontaneamente frente a uma ofensa que nos fere. Mas Cristo nos libera da tristeza da alma. É cristão perdoar e pedir perdão: “Digo-te, não até sete vezes, mas até setenta vezes sete vezes” (Mt 18, 22). O cristão extrai forças da oração, da contemplação de Jesus Cristo, seu modelo; extrai forças da Eucaristia, do sacramento da Penitência; extrai forças da intercessão de Maria Santíssima, Virgem clemente. Perdoar de coração é maravilhoso. Ser sempre bondoso e compassivo é difícil, mas deixa a consciência tranquila e a alma em paz. Abre-nos ao perdão de Deus, que é o mais valioso que temos. E a longo prazo… quem sabe? Muitas vezes a bondade e a compreensão abrem também o coração endurecido do próximo que se arrepende e pede perdão. O cristão está chamado a não se deixar vencer pelo mal, “mas vence o mal pelo bem” (Rm 12,21).

Consolar os aflitos

A vida do homem, desde que nasce até a sua morte, pode estar acompanhada de sofrimentos físicos e morais. Contra a dor física existem calmantes, remédios. Contra a dor moral, que alívio se pode receitar? Santo Agostinho nos conta, no livro quarto das suas “Confissões”, que, com a morte do seu amigo, “ele se converteu para si mesmo numa grande pergunta”. Como aliviar a falta de sentido? Quando Deus não está presente no coração do homem, produz-se uma dor ainda mais terrível: sofre-se sem Deus.

Podemos dizer que a tristeza é um estado emocional que é resultado dos pensamentos e dos sentimentos que permitimos entrar ou que inclusive cultivamos no nosso coração. Nunca teremos um controle absoluto do nosso mundo emotivo, mas é verdade que, se cultivarmos pensamentos cheios de esperança, viveremos uma vida alegre; se deixarmos que cresçam pensamentos de desânimo e pessimismo, estaremos tristes. Portanto, vemos que, de certa forma, é possível “educar” os próprios estados emocionais, vigiando os pensamentos aos que damos espaço no nosso coração. Geralmente podemos “escolher” a alegria e “rejeitar” a tristeza. Também acontecem estados de tristeza ou depressão que não se podem superar só à base de boa vontade e requerem um tratamento médico. Devemos estar particularmente próximos e ser especialmente compreensivos e pacientes com essas pessoas, nossos irmãos, a quem amamos com todo o nosso coração.

Deus sabia que o homem tende facilmente à tristeza. Por isso, São Paulo nos deixou o que poderíamos chamar de “mandato da alegria”. Na sua carta aos filipenses, ele lhes ordena: “Alegrai-vos sempre no Senhor! Repito, alegrai-vos!” (Flp 4, 4). E a Igreja, sensível às tristezas e aflições dos homens, incluiu entre as obras de misericórdia a de consolar o aflito. Cada cristão teria que se converter em um anjo do consolo, como o que se aproximou de Jesus no Horto; como o cirineu ou a Verônica, que aliviaram seus sofrimentos na Via Dolorosa. É tão fácil consolar! Basta uma palavra, um sorriso, um abraço. Às vezes, nem é necessário falar. É suficiente estar, como fez Maria, consolando seu Filho com sua presença ao pé da cruz. O profeta Isaías anuncia que “O Senhor Deus enxugará as lágrimas de todas as faces” (Is 25, 8). Nós também podemos enxugar as lágrimas dos rostos dos nossos irmãos!

Por outro lado, o consolo mais duradouro e eficaz se consegue levando a pessoa que sofre a Jesus. Aí já não somos nós que falamos. É Cristo quem fala ao seu coração através das nossas palavras. Foi o que fez Maria de Betânia com a sua irmã Marta, quando ela chorava desconsolada depois da morte do seu irmão Lázaro. “O Mestre está aí e te chama” (Jo 11, 28). Temos que fazer ver a todos os que sofrem que Jesus Cristo está aí e os chama. Ele quer que vão a Ele e lhe abram o coração. Não existe problema que não possa ser resolvido diante da Eucaristia. Não há tristeza que não possa ser consolada no Sacrário.

As ladainhas lauretanas, que normalmente rezamos depois do terço, invocam Maria como “consoladora dos aflitos”. Ela quer escutar dos nossos lábios, com fervor, a oração da Salve Rainha, que se dirige a Maria “gemendo e chorando neste vale de lágrimas”. Ela pode e quer aliviar toda amargura e toda dor. Existem alguém não experimenta paz e consolo nos braços de sua Mãe? Para o cristão, a vida pode estar cheia de cruzes e sofrimentos, mas não é uma vida triste. Este é o grande paradoxo. São Paulo nos ensina que “os sofrimentos do tempo presente não têm proporção com a glória que há de ser revelada em nós” (Rm 8, 18). Sem a esperança, a dor é insofrível. Mas graças à esperança, podemos converter a dor em oração e na oração achamos consolo. Por isso, São Paulo transborda de esperança diante dos coríntios e apresenta os cristãos “como sendo tristes e, no entanto, estando sempre alegres; como indigentes e, no entanto, enriquecendo a muitos; como não tendo nada e, no entanto, possuindo tudo” (2 Co 6, 10).

Esta riqueza interior é a força que nos torna capazes de consolar os aflitos, de convidá-los a alegrar-se antecipadamente pelas realidades futuras. No ano passado, faleceram os padres José de Jesús Rodríguez e John Coady. Quanto eles sofreram! No entanto, todos nós víamos que os últimos momentos de suas vidas foram dedicados a consolar, animar, fortalecer e acompanhar os demais. É o mistério maravilhoso da força do amor, que tudo pode, que aguenta sem limites, suporta sem limites, dá-se sem limites (cf. 1 Co 13,7). Muitas vezes, experimentamos uma tristeza que parece invadir a nossa alma. No entanto, como Jesus Cristo no Getsêmani, nossa vida é animar, fortalecer e consolar. A esperança sobrenatural nos enche de uma alegria tão real, que nenhuma tristeza presente pode escurecer. Como se esforçava Cristo para consolar os discípulos durante a Última Ceia! Queria fazê-los descobrir que eram portadores de uma alegria que ninguém lhes poderia arrebatar: “Em verdade, em verdade, vos digo: chorareis e lamentareis, mas o mundo se alegrará. Ficareis tristes, mas a vossa tristeza se transformará em alegria. (…) Também vós agora sentis tristeza. Mas eu vos verei novamente, e o vosso coração se alegrará, e ninguém poderá tirar a vossa alegria” (Jo 16, 20-22). A alegria é um sinal distintivo do cristianismo. Podemos dizer que é como o vestido da fé. Por isso, os santos sempre são pessoas alegres. Impressiona-me muito a alegria que transmitem tantas pessoas que têm o coração sempre em Deus. Quem tem a Deus, tem tudo.

Queridos amigos e membros do Regnum Christi, Deus queira que estes dias de Quaresma nos levem a viver mais unidos que nunca a Jesus Cristo, fonte da verdadeira misericórdia. Só n’Ele aprenderemos a ser misericordiosos como o nosso Pai celestial e seremos capazes de praticar a misericórdia com os nossos irmãos, como fez o Bom Samaritano.

Eu teria muito mais para refletir sobre essa bela virtude e tenho certeza de que cada um de vocês saberá tirar um fruto concreto destas reflexões. Obrigado de coração pelo seu fervor e entrega, que tanto nos edificam. Quanto eu gostaria de expressar-lhes a minha gratidão! É impossível dizê-lo com palavras. Uma família, quanto mais sofre, mais ama. Quanto maior a dor, maior o amor.

Que Maria Santíssima, Mãe da Misericórdia, sempre lhes abençoe e faça de seus lares verdadeiros focos de paz, amor, perdão e compreensão. Com uma lembrança constante nas minhas orações, despeço-me atenciosamente em Cristo,

Pe. Álvaro Corcuera, L.C.


DATA DE PUBLICAÇÃO: 2010-02-19


 
 


 



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