Rafael Kizimia

“Antes mesmo de te formar no ventre materno, Eu te escolhi; antes que viesse ao mundo, Eu te separei e te designei para a missão de profeta para as nações.” (Jeremias 1,5)

No último ano da escola me convidaram para fazer missões de evangelização na Amazônia, pelo que comecei a me preparar com muita alegria. Uma semana antes de embarcar eu estava rezando o terço no meu quarto e de repente, depois de um ano e meio sem pensar um só segundo no tema, surgiu uma convicção muito forte dentro de mim: eu seria sacerdote.

Desde pequeno senti sempre um grande desejo de fazer alguma coisa pelos outros, de fato quando me perguntavam o que queria fazer quando crescesse sempre respondia que gostaria de ser médico para ajudar aos outros. O que não sabia era que Deus tinha outros planos.

Nasci numa família católica, mas por um ou outro motivo nem sempre vivemos intensamente a nossa fé o que nos levou a peregrinar por outros caminhos fora da Igreja até que como bons filhos voltamos a casa. Meu pai faleceu quando eu ainda tinha 10 anos, pelo que desde esse momento entre a minha mãe, meus irmãos e eu nasceu um vinculo muito especial que nos une até hoje. Agradeço muito a Deus porque desde o começo deram um apoio incondicional à minha vocação não obstante as dificuldades que tiveram que enfrentar.

            Com o passar do tempo o desejo de fazer alguma coisa pelos outros se fortificava em mim, mas eu não achava mais que ser médico era a solução, pouco a pouco sentia que formar uma família colmaria esses desejos.

            Quando estava no último ano do ensino fundamental, a providência de Deus começou a atuar com mais clareza. Um dia nos perguntaram na escola quem gostaria de ser padre, como isso nunca tinha passado pela minha cabeça não disse nada, mas um grande amigo meu teve a inspiração de levantar a mão e dizer que tinha a curiosidade de saber se Deus o chamava. Alguns dias depois um jovem, que hoje é um sacerdote legionário, o Pe. Alexandre Nunes, veio conversar com o meu amigo e convidar ele para fazer missões e conhecer o seminário do Legionário de Cristo. Como eu estava ao seu lado também recebi o convite, ao final meu amigo não foi nesta viagem, mas eu, sem saber bem o porquê, decidi ir.

            Depois de passar a semana santa no noviciado da Legião, eu comecei a fazer missões de evangelização, estas experiências marcaram a minha vida e fizeram germinar a semente da vocação que Deus já tinha plantado em mim e que ainda não era consciente. Depois do primeiro ano de missionário me incorporei ao Movimento Regnum Christi o que me ajudou a viver uma profunda experiência de vida cristã. Acho que tal experiência me fez ver que era possível ser cristão no mundo, ser jovem e seguir a Cristo. Das muitas coisas que fizemos me lembro de modo especial as reuniões de formação e os encontros com Cristo que fazíamos os sábado à noite antes de sair para uma festa. Era como ser um fermento na massa, não importava o ambiente em que estávamos, nós conseguíamos viver a alegria de ser jovens e ao mesmo tempo formar ao nosso redor um ambiente sadio e cristão.

            Quando estava no final do primeiro ano do ensino médio senti pela primeira vez que talvez Deus me chamasse ao sacerdócio, então comentei ao meu diretor espiritual que me disse para colocar tudo isso nas mãos de Nossa Senhora. E assim o fiz, confesso que neste momento tive a certeza que seria sacerdote. Sem embargo, no ano seguinte, por medo e falta de generosidade comecei a me afastar um pouco dos meus compromissos de vida cristã, nas vezes que tinha direção espiritual não tocava no tema da vocação. Assim se passou um ano e meio onde nem por um instante pensei de novo na vocação. Por isso, eu já começava a pensar na minha futura profissão, no desejo de formar uma família e levava adiante a paixão que sentia pelo teatro. Já fazia dois anos que trabalhava como ator e estava me saindo cada vez melhor, cheguei a ganhar alguns prêmios e desejava fazer uma experiência no cinema, mas Deus tinha outros planos.

            No último ano da escola me convidaram para fazer missões de evangelização na Amazônia, pelo que comecei a me preparar com muita alegria. Uma semana antes de embarcar eu estava rezando o terço no meu quarto e de repente, depois de um ano e meio sem pensar um só segundo no tema, surgiu uma convicção muito forte dentro de mim: eu seria sacerdote. Os dez dias passados na Amazônia foram de muita luta contra meu egoísmo, mas ao ver tantas almas que precisavam conhecer a Cristo, aquele desejo que sentia quando era criança, de ajudar aos outros, recobrou força em mim e eu finalmente entendi qual era o meu caminho.

            Uma vez tomada a decisão senti uma grande paz mesmo que os medos humanos de um futuro desconhecido não deixaram de surgir, mas Deus deu forças e graças a mim e às pessoas que estavam ao meu redor, mesmo quando não entendiam a minha decisão.

            Finalmente em janeiro de 2004 iniciei essa aventura maravilhosa que é a consagração a Deus. Aos poucos meses de ter começado o noviciado fui enviado à Espanha para continuar ali a minha formação por mais 4 anos. Depois de estudar a filosofia em Roma pude regressar ao Brasil onde trabalhei por 3 anos em dois seminários da Legião.

            Realmente não é fácil tomar a decisão de deixar tudo para seguir a Cristo, mas uma vez que se coloca o pé nesta estrada posso testemunhar que é a coisa mais maravilhosa do mundo, não que seja fácil e não tenha suas dificuldades e sofrimentos, mas a alegria de fazer tudo por aquele que deu a vida por nós e de levar muitas almas para o céu, supera tudo isso.

kizimia-rafaelO Pe. Rafael Kizimia Fantini nasceu em São Paulo, Brasil. Tem dois irmãos e provem de uma família católica. Decidiu entrar no seminário em 2004 aos 18 anos depois de alguns anos de experiência em missões de evangelização que o fizeram ver a necessidade que as almas tem da ajuda dos sacerdotes. No mesmo ano de 2004 foi enviado a Salamanca, Espanha onde continuou seu noviciado e fez os estudos de humanidades clássicas. No ano de 2008 se mudou para Roma onde cursou dois anos de filosofia. De 2010 a 2013 trabalhou como formador em dois seminários da Legião de Cristo no Brasil. Finalmente terminou seus estudos de teologia em Roma no ano de 2016.